Hoje iniciamos o Caminho? —Depende. Se o clima permitir.

Com frio e previsão de chuvas para o dia todo e temperatura na faixa de 4ºC para a altitude de Roncesvalles, vamos avaliar as chances, após o café da manhã. Se for melhor, aguardamos até amanhã por aqui, embora a previsão também indique chuvas para o sábado.

O percurso do primeiro dia nos levará a Roncesvalles, após a dura subida dos Pirineus, e depois a Burguete, Espinal e, finalmente a Viscarret, onde pernoitaremos, com reserva já feita para uma confortável pousada.

Nesta semana, está difícil para conseguir hospedagem, por causa dos feriados franceses. Além do 1º de maio, eles têm um feriado no dia 8, ligado à II guerra mundial, o que traz muitos turistas locais, além dos peregrinos, para a região.

Manhã fria e molhada em St. Jean

Após muito debate e considerações, resolvemos enfrentar o frio e a chuva. Mas abdicamos da trilha Napoleão e seguimos pela carretera, que segue pelo vale e assim oferece temperaturas menos extremas do que a trilha, que vai pela crista das montanhas. Mesmo assim, como veremos, enfrentamos temperaturas de até 1°C, sob chuva gelada.

Saímos de St. Jean às 8:38h, com chuva fina e 10°C. Passamos pelo centro da cidade e desviamos da rota programada para tomar a estrada pavimentada que leva a Roncesvalles.

Olmos ao longo da estrada, entre St. Jean e Arnéguy

O trecho de cerca de 10km que leva à fronteira com a Espanha, na cidadezinha de Arnéguy, é de suave inclinação. Um pouco antes, aos 8km, fizemos uma parada para um café num bar da estrada, o choque térmico ao entrar me indicou o quanto estava frio. Provavelmente, já alguns graus abaixo dos 10°C do início. Prosseguimos até Arnéguy que, sendo o último vilarejo na França, mereceu um selfie:

Primeiro selfie

No ponto em que cruzamos a divisa, havia um carro da polícia francesa que estava parando veículos para checar documentos, mas não incomodava os ciclistas. Até aí seguíamos bem, sem maiores consequências da inadequação de nossa indumentária, para o clima que enfrentávamos nessa travessia.

Arnéguy, França

Adentrando a Espanha, logo chegamos ao primeiro vilarejo espanhol, Luzaide, de onde fotografei a agência dos correios, para mostrar ao sogro, que é filatelista. A partir daí, a subida começou a ficar dominante e cada vez mais íngreme, mas sempre permitindo mantermos um ritmo confortável.

Agência de correios em Luzaide, Espanha

Depois desta cidade, as construções foram rareando e os Pirineus mostraram sua face mais agreste. Do km 18 até o 28, onde fica o passo dos Pirineus, foi uma permanente subida, com matas, escarpas e cascatas. Muito lindo, mas, no dia de hoje, chuvoso e gelado. Em alguns pontos, a trilha dos peregrinos saía da estrada, tomando atalhos, à vezes de alguns quilômetros, até voltar ao asfalto. Devido às condições do clima, entretanto, permanecemos fiéis à rodovia. Trilha fica para outra vez.

Desvio por trilha de cascalho, para os caminhantes

À medida em que ganhávamos altitude, aumentava o frio, e a chuva só fazia apertar. Meus pés, já encharcados, começaram a sofrer com o frio e só as lindas paisagens davam alívio.

Paisagem característica da encosta dos Pirineus

Quando passamos o ponto mais alto da travessia, a 1.069m de altitude, e começamos a descer, a temperatura chegou ao mínimo de 1°C e minhas mãos, protegidas só com luvas curtas de tecido, começaram a congelar. Ao chegar a Roncesvalles, paramos no primeiro bar que encontramos e pedimos chocolates quentes e sanduíches (bocadillos) do delicioso presunto espanhol. Minhas mãos, congeladas, doíam a ponto de me dar enjôo. Bia, que foi menos afetada, porque tem circulação melhor—e luvas longas—me ajudou a aquecê-las. Um processo demorado e doloroso, que não desejo para ninguém. As mãos geladas não me permitiram fotografar Roncesvalles, mais uma coisa que ficou para a próxima vez.

Depois de aquecidos e alimentados, seguimos em frente, para pernoitar em Viscarret, mais uns 12km adiante. Mas, logo na saída, a tradional foto na placa de 790km!

O trajeto final foi rápido, com uma única subida de nota, mas com mais frio e chuva, até chegarmos ao destino deste dia, a Posada Nueva, na vila de Viscarret, ou Biskarreta, como se diz na língua basca.

Resumo do dia 1 – Caminho de Santiago

Percurso: de Saint-Jean-Pied-de-Port a Viscarret

Distância e ganho de elevação: 43km com 1.191m

Até amanhã!

5 comentários sobre “3 de maio de 2019 – Saint-Jean-Pied-de-Port

  1. Ai…ai…já vi que farei o Caminho novamente com vcs! Que delícia! Que saudade! De cada perrengue, do frio, do calor, só da chuva não gostei muito não…mas faria tudo novamente! Curtam muito casal lindo! ❤️🚴🏻‍♂️

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  2. Visitei os Pirineus no verão, mesmo assim estava bem fresco. Na verdade, minhas duas amigas e eu nos perdemos. Fomos ver Montsegur, um castelo no topo do monte de mesmo nome, famoso local por ter sido a última fortaleza dos adeptos da heresia chamada Catarismo, os cátaros, vencidos pelos senhores do Norte da França (sec. XIII). No trajeto até o monte vimos uma pequena cidade. Na volta pensamos em visitar esse local. Ficamos dando voltas e nada de aparecer a cidadezinha. A estrada que percorríamos serpeava pela vegetação linda dos Pirineus. Estávamos completamente desnorteados. De repente, numa curva, existia um camping e, ao lado, uma venda. Paramos para tomarmos café e obtermos informações. Imagine só: o dono da venda sabia falar português, tinha vivido alguns anos no Brasil, na Bahia. Conseguimos pegar o caminho certo e conhecemos a cidadezinha. Bela lembrança dos Pirineus!

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