Alto do Poio, Galiza

O 17º dia amanheceu com 2°C e sensação térmica de 1° C, mas parecia estarmos em um outro mundo. O céu cinzento e pesado tinha sido substituído por outro, azul e iluminado por um lindo sol, daquele tipo que Bia chama de “lâmpada de geladeira”, que não aquece, mas ilumina. Nós, então, envergamos nossas roupas de pedalar, novamente com todos os agasalhos disponíveis e, tendo notado, sem fazer muito alarde, que luvas, calçados e fundilhos das bermudas de pedalar não tinham secado completamente, tomamos um café da manhã animado, vendo o dia claro, pela janela do bar, e o já familiar contêiner amarelo lá fora, seco, brilhando sob o sol.

Entrando na geladeira

Às nove da manhã, saímos para buscar as bicicletas, que tinham ficado guardadas na garagem, ao lado do albergue. Fazia um frio cortante que, depois constatei no Gps, correspondia aos de 2ºC que vimos no aplicativo de clima. O sol, que fazia intermitentes aparições, entre nuvens apressadas, realmente, a nada esquentava. Nestas condições, mesmo as simples operações de preparo das bicicletas se tornavam, deveras, penosas. Encaixar alforges em bagageiros congelados pelo frio da madrugada, verificar a pressão dos pneus, acoplar os Gps aos encaixes de guidão e buscar a localização e o mapa do trajeto do dia nos aparelhos, foram o suficiente para fazer minhas mãos doerem de frio. Voltei para dentro do abergue e estimulei a circulação do sangue, movimentando os dedos no ambiente mais ameno do bar. Momentos depois, saímos outra vez e iniciamos a descida pela carretera, em direção a Triacastela.

Fonfría, primeiro vilarejo após o Alto do Poio

Foi nas curvas descendentes, que antecedem o primeiro vilarejo do trajeto, cujo nome, Fonfría, pareceu-nos bem adequado, que a baixa temperatura, intensificada pela sensação de vento, causada por nosso rápido deslocamento descida abaixo, começou, de novo, a congelar minhas mãos. Meu Gps registrava, neste momento, 1ºC, mais frio ainda que no momento da saída do Alto do Poio. Numa das grandes curvas desta estrada, fiz uma parada para articular os dedos das mãos, tentando aquecê-los por baixo do meu fleece, sem muito sucesso. Bia, que vinha logo atrás, parou ao meu lado para ver o que se passava e, ao saber que minhas mãos estavam, outra vez, congelando, sugeriu que eu as aquecesse com o calor de seu corpo. Levantou um pouco o casaco e eu coloquei minhas mãos por baixo, pousando-as sobre sua barriga, de uma forma que me obrigava a ficar ligeiramente curvado para a frente. A cena, certamente bizarra, de dois ciclistas parados à margem da rodovia, num abraço tão estranho, foi vista por um motorista que passava. Indeciso sobre a situação, parou seu carro um pouco abaixo de onde estávamos e fez menção de dar ré até nós, para ver se podia ajudar. Sinalizamos, então, indicando que estava tudo bem e ele, relutantemente, prosseguiu viagem, sumindo por trás da próxima curva. Aos poucos, a circulação foi voltando e meus dedos retomaram um mínimo de sentido de tato. Prosseguimos.

Primeira vista de Triacastela, por trás da última curva da estrada

No restante da descida, o frio continuava intenso, mas, como eu havia previsto, ao chegarmos à baixada de Triacastela, a temperatura subiu um pouco. Ou essa era, pelo menos, a sensação psicológica do fato, que consistia, na realidade, numa elevação de apenas um grau, para “amenos” 2ºC. Foi o que nos fez parar tão cedo, num albergue, para tomar uma bebida quente, num ambiente aquecido. Para maior ironia, devo registrar que, ao chegarmos, havia um casal de franceses, de bermudas e em mangas de camisa, tomando chá, numa mesinha colocada do lado de fora do albergue, como se estivéssemos passando por uma primavera verdadeira, com “quase” calor. Deu raiva!

Chegada a Triacastela

Os Bosques da Galícia

As incríveis vistas da serra, que eu havia impunemente previsto ontem, ainda não haviam se materializado. Não que a descida para Triacastela não fosse bonita, mas o fato é que o trecho subsequente, de 10km, que trilhamos após cruzar o Río Oribio, na saída daquela cidade, até Samos, só pode ser descrito como maravilhoso. Eram descidas suaves e sinuosas, acompanhando o traçado do vale deste rio, que desce até juntar-se ao Río de Ferreira, um pouco abaixo de Lusío, para formar o Río Sarria.

Curva da estrada, próximo a San Cristovo do Real

Como o leitor vai logo notar, neste dia, para compensar um pouco a ausência do registro de localização das fotos, que se fora junto com o meu celular, passei a fotografar, de tempos em tempos, as placas de indicação das localidades por onde passávamos. Renche, um minúsculo vilarejo, já às margens do Sarría, foi assim registrado.

Depois de passamos pela ponte sobre o Río Sarria, nossa trilha deixou o leito da estrada e, então, começou um sucessivo deslumbramento de bosques, riachos e fazendas, entre árvores milenares e flores, casas de pedra e campos cultivados, que não há como descrever. Passamos, assim, por Lastres e Freituxe, maravilhados.

Como são lindos os bosques da Galícia!, eu pensava. E até esquecia do frio que, na relidade, tinha mesmo amenizado, tendo a temperatura subindo para cerca de 7ºC, a partir de San Cristovo.

Bia desliza pela trilha florida, à altura de Freituxe

Ao passarmos pelo local dessa foto (abaixo), não pude deixar de parar para apreciar e fotografar. O espetáculo da trilha florida, beirando o curso do rio, em meio ao bosque, era tão impactante que me fez brincar com Bia, dizendo: —Não vou mais fotografar essas flores amarelas! Já virou carne-de-vaca!—Ela então trocou o sorriso, que desde antes já trazia, por uma expressão mais explícita de contentamento: o riso!

Uma explosão de flores, entre Freituxe e San Martiño do Real

Depois, cruzamos, pela segunda vez, o Río Sarria, passamos por San Martiño do Real e seguimos. Cruzamos a estrada de asfalto e, logo, uma outra via secundária, seguindo sempre por trilhas de cascalho e pedras soltas, num deslumbramento sem par.

Río Sarria, nas proximidades de San Martiño do Real

Ao passar por San Martiño, precisamos desviar de um peregrino inusitado que cruzava, lentamente, nosso caminho. Uma lesma negra como piche.

Lesma atravessando a trilha, em San Martiño do Real

Monastério de Samos

E, assim, com mais alguns quilômetros de trilhas deslumbrantes, eis que nos aparece, por entre os abetos, carvalhos e pinheiros do bosque, a impactante visão do Monastério de Samos.

Monastério de Samos, visto do Camino

O Río Sarria, após passar por San Martiño, afasta-se do trajeto do Camino, mas volta a se aproximar dele, alguns quilômetros abaixo, num local onde o vale, que nestas paragens vinha bastante estreito, começa a se alargar. É neste local privilegiado que o rio se volta para o leste e, numa curva abrupta, se reorienta para o sul e abraça o grande Monastério de São Julião de Samos, um complexo religioso da ordem beneditina, que remonta ao longínquo século VI.

O Monastério de Samos, visto do sul, na passagem pelo Río Sarria

O monastério tem uma história atribulada, que inclui incêndios e reconstruções, o abandono, devido às invasões muçulmanas, e o renascimento, após a reconquista, tornando-se, durante a idade média, uma dos mais importantes centros religiosos da Galícia.

Como resultado dessa movimentada história, o monastério apresenta uma mistura de estilos de diversas épocas, sendo a atual igreja, construída entre 1.734 e 1.748, claramente barroca.

Subir a escada em formato de laço e entrar pela pesada porta, formada por almofadas de madeira, ao interior da igreja, foi uma experiência singular. Não havia como conciliar os anjos rococós e os desenhos e curvas delicadas do altar daquele templo com a crueza da estátua, posicionada ao lado de uma das grandes colunas que sustentam a abóbada da nave central, retratando, provavelmente, o rei Fruela I, das Astúrias, que pisa a cabeça de um muçulmano, assim identificado por seu bigode volteado e elmo cônico, e ainda empunha a espada que a decepara. É isto cristão?

Só sei que queríamos muito obter o carimbo do monastério para nossas credenciais de peregrinos, mas não o encontramos ali dentro. Então, saí da igreja, onde Bia permaneceu mais um pouco, e contornei-a, chegando a um local, abaixo da lateral da igreja, onde havia o sinal da “vieira” do Camino e a identificação de um albergue religioso para peregrinos.

Era um salão longo, de teto abobadado, com belos afrescos coloridos, representando cenas e símbolos da peregrinação de Compostela. Bem na entrada, que dava para o centro do cômodo, havia uma espécie de guarita, com porta e guichê de vidro, por onde se podia ver, repousando sobre um balcão, o desejado carimbo e, ao lado, sua almofada de tinta. Mas estava tudo fechado e não havia ninguém para nos atender.

Claramente, este albergue seguia a prática usual das hospedagens religiosas para peregrinos. Elas os recebem à tarde, geralmente, a partir das 14 horas, sem nada cobrar por seus serviços. Oferecem um beliche limpo, um local para banho e fecham pela manhã, geralmente em torno das 7 horas, para limpeza e preparação do ambiente, para os próximos hóspedes. Neste local, como também é usual, havia uma caixa de doações, numa das laterais do quarto, o que é uma forma de permitir aos peregrinos, que assim o desejem, contribuir com a manutenção do serviço.

Do lado de fora, via-se uma plaqueta, avisando o horário das missas e o de abertura do albergue, às 14h. Como eram cerca de 11:45h, me resignei. Acenei para Bia, que vinha subindo a rua, para irmos a um albergue “leigo” localizado um pouco acima, do outro lado da via, o “Hostal Victoria”. Conseguimos lá, afinal, um carimbo e conhecemos uma brasileira que lá trabalhava há cerca de três meses e, acreditem se quiserem, declarou não ter ainda visitado o monastério.

Hostal Victoria, em Samos

Não me lembro bem se antes ou depois desta passagem, eu subi um pouco mais, por esta mesma rua, para ver a segunda ponte de Samos, sobre o Sarria, que fica no início do seu abraço ao monastério ou seja, portanto, subindo o rio. Um lindo e calmo lugar, onde uma senhora descansava num banco, imóvel como uma estátua.

Ponte sobre o Río Sarria, acima do monastério

Já de saída, pegamos a travessa ao lado do Hostal Victoria, na tentativa de dar uma volta naquele quarteirão, por onde uma placa anunciava a existência de uma capela do século XII. Não encontramos a capela, que talvez se localize mais distante, pela trilha que seguia subindo a encosta, após cruzar, outra vez, o Río Sarria. Mas era um lugar agradável, em meio a um bosque profundo e silencioso, que fez valer a pequena volta que demos.

Río Sarria, na vereda que leva a uma capela do séc. XII

Em termos de paisagens e emoções, já seria o suficiente para um dia. Mas, em função de tudo pelo que tínhamos passado, pela sensação de aprisionamento, no Alto do Poio, e, hoje, pelos ares de liberação, que nos trouxeram os bosques da Galícia, queríamos mais. Pegamos a estrada e prosseguimos, descendo o vale, em direção à cidade que empresta, deste belo rio, seu nome: Sarria.

Almoço em Sarria

Já comentei, em outra postagem, que o galego parece um “portunhol” bem falado. E, de fato, vemos que a língua daqui se aproxima mais de um um dialeto português, do que de um espanhol castiço. Uma das características dessa mistura, aqui na Galícia, é a substituição de alguns ésses e jotas por xis, como em San Xusto, no lugar de São Justo, e aqui, onde passamos, Foxos, no lugar de Fossos.

Vilarejo de Foxos

Depois, seguiram-se A Ferrería, Teiguin, O Vao, Vilacha, O Empalme e Aián, até passarmos por uma bela casa em ruínas, na entrada para Frollais. Sempre seguindo pelo asfalto da carretera.

Casa em ruínas, perto de Frollais

E, assim, à uma hora da tarde, chegamos, ainda pelo asfalto, à maior cidade desta região da Galícia, a bela Sarria.

Entrada de Sarria

Logo depois de entrar na cidade, o caminho nos desviou da carretera para vias mais secundárias, fazendo-nos cruzar o Río Sarria pela Puente Ribeira (sim, escrita “Ribeira” como o “i” típico do português), ao invés de pela ponte maior e mais moderna que conduz, por dentro da àrea urbana, a estrada principal.

Rio Sarria, visto da Puente Ribeira

Naquele momento, a temperatura já havia alcançado agradáveis 14ºC, o que aguçava nossa fome. Na outra margem do rio, num calçadão “pedonal”, encontramos um restaurante simpático, onde paramos para almoçar. O “Meson Roberto” também oferecia o menu peregrino, mas parecia mais um restaurante tradicional da cidade, frequentado pelos locais. Num determinado momento, chegou um grupo de escolares, meninos e meninas, por volta de 10 anos de idade, com duas professoras. Muito bem educados, almoçaram seus macarrões, entre risos e conversas, gerando um agradável burburinho, sem exagero que demandasse intervenções das professoras.

Tudo estava tão calmo e agradável, que me inspirou a fazer uma bela imagem da transparência das águas do Río Sarria, na sua passagem pela cidade que leva-lhe o nome.

Algas no fundo do Río Sarria

A saída de Sarria

Neste momento, que parecia tão abençoado, eu já não tinha dúvidas de que chegaríamos hoje, de fato, a Portomarín. Seriam mais 23,5km subindo a encosta do vale do Sarria e, depois, descendo até as margens do Río Miño, num clima que dava sucessivas mostras de melhora, da qual os presentes 14ºC, no contraste com o início da manhã, soavam como uma tarde de verão.

Portanto, bem alimentados e num clima mais ameno, pegamos uma rua pedonal, com casas antigas, de pedra e alvenaria, que ostentava o curioso nome de Rúa Corga do Asno, e seguimos confiantes.

Rúa Corga do Asno, em Sarria

Por lá subimos, sempre cruzando com muitos peregrinos, até alcançar, no ponto mais elevado daquela margem do rio, o cemitério e o Convento da Mercé.

Convento da Mercé

Daí em diante, pegamos trilhas e mais trilhas, não sei qual delas mais linda, subindo, lentamente, até ultrapassar a crista do vale do Sarria e entrar no grande vale do Miño.

O Bosque de Sarria

Primeiro, passamos por um grande bosque, que seguia, num sucessivo zig-zag pela encosta do vale. No início, árvores jovens e frondosas faziam da trilha um túnel verdejante.

Bia pedalando pelo bosque, na saída de Sarria

Numa clareira, passou um pássaro grande, que não pude identificar de que espécie era, mas que fotografei em vôo, obtendo uma imagem exemplar e vívida do sentimento de prazer e liberdade, que aquele momento da viagem nos trazia.

Pássaro cruzando uma clareira do bosque, perto de Sarria

Depois, o bosque começava a nos mostrar suas árvores mais antigas, carvalhos principalmente, ao passo que a trilha ia se tornando, pouco a pouco, mais íngreme e tortuosa, com alguns trechos técnicos para o ciclismo.

Velho carvalho à beira da trilha

As cenas de peregrinos caminhando em meio às árvores centenárias fazia um espetáculo à parte. Eu não cansava de olhar e parava, de tempos em tempos, para registrar em fotografia.

Peregrino caminha entre as árvores do bosque

Três quilômetros após deixarmos o restaurante em Sarria (ou seja, ao entrar no quilômetro 43 desta jornada), o bosque começa a se abrir, com grandes clareiras se alternando com áreas de mata fechada, embora as inclinações de subida permanessem elevadas, pelo menos por mais três quilômetros, onde, tendo passado o vilarejo de Vilei, em que fizemos uma parada, cruzamos também Rente e, no povoado de A Serra, atingimos o topo desta longa subida.

Clareira no bosque, entre Sarria e Vilei

Esta área de campinas e bosques é particularmente atraente, exibindo flores silvestres, campos planos e verdejantes, pontilhados de colinas e grupos esparsos de árvores e arbustos, muitos deles em flor.

Flores silvestres, num dos campos que antecedem Vilei
Campina cercada de colinas e bosques

Uma ajuda inesperada?

Em Vilei, paramos em uma loja de souvenirs. Um atencioso comerciante nos atendeu e, enquanto passeávamos pelas bancas de objetos, dos mais variados tipos, e escolhíamos alguns pins e imãs de geladeira, ele perguntou de onde éramos, para onde estávamos indo neste dia e todo tipo de indagação que é usual no ambiente do Camino.

De um jeito muito convincente e amigável, ele nos fez saber que, nesta parte do caminho e devido à presente coincidência com um feriado local, estava sendo difícil encontrar hospedagem, ainda mais no nosso caso, posto que procurávamos quartos com banheiro privado. Prontificou-se, então, a ajudar e fez vários telefonemas para albergues de Portomarín, enquanto ia reportando, ao final de cada ligação, um a um deles, lotado.

Ficamos bem preocupados. Nosso dia de viagem estava sendo longo e cansativo, de modo que não seria prudente arriscar um prolongamento excessivo do percurso, devido à falta de vagas de hospedagem. Ainda assim, perguntei se não seria mais fácil encontrar algum lugar fora da cidade, ainda que depois de Portomarín, desde que não muito distante. Ele aquiesceu e fez mais um telefonema. Interrompeu a ligação e disse-nos que havia vagas num albergue localizado cerca de oito quilômetros após a cidade. Bia perguntou se acrescentaria muita subida ao percurso, que já era longo e cansativo, e ele respondeu que não, que seria tudo “bajada” (descida.) Então, concordamos e ele fez a reserva para nós, tendo anotado num papel, que nos entregou, os dados do albergue, o Hospital da Cruz, no Alto da Cruz, e o telefone da hospedagem.

As montanhas, antes do vale do Marzán

Após Vilei a paisagem muda um pouco. Os bosques se tornam mais esparsos e abrem espaços para pastos, plantações, áreas urbanizadas e à visão ampla das montanhas, que se sucedem como ondas, no mar do horizonte.

Plantação próxima à Iglesia de Santiago de Barbadelo

Em Rente a situação é parecida. Passamos por bosques entremeados de pequenos pastos e campos, que ofereciam cenas bucólicas, de uma beleza delicada e especial.

Pasto próximo a Rente engastado entre dois bosques
Bia avança pelo bosque, para alcançar o próximo campo

Já em A Serra, onde atingimos a altitude de 613m, o cenário volta a apresentar os bosques densos e antigos, como os que já tínhamos presenciado após a saída de Sarria. A sensação, ao pedalar por esta longa alameda de cascalho, sob a ramada de árvores centenárias, era a de ter entrado num conto dos irmãos Grimm.

Bosque na região de A Serra

Peruscallo e A Brea

Daí em diante, a trilha segue sacolejando pelo alto das serras, subindo e descendo por bosques e fazendas e apresentando uma infinidade de paisagens: bosques arbustivos e bosques de grandes carvalhos, campos cultivados ou em descanso, pastos e terras aradas.

Bosque florido, próximo ao Río de Meixente
Campo em descanso, em Peruscallo
Campo arado, alguns minutos depois

Cerca de um quilômetro e meio após Peruscallo, a trilha cruza o curso do Rego de Chelo e sobe em direção de A Brea, onde atingimos a maior altitude do dia, 651m. Para alcançar esta elevação, a trilha segue por um sendeiro estreito e ladeado por taludes tomados pela vegetação, desembocando, afinal, no vilarejo, onde passamos por uma dupla de pergrinas, que levavam um bebê bem pequeno, talvez com alguns meses de vida, num carrinho comum.—Inacreditável!—Será promessa?

Subida para A Brea, na altitude de 651m
Vilarejo de A Brea e a dupla com um bebê

Sucessão de serras e vales

Após passarmos por A Brea, seguimos por uma sucessão de serras e vales, onde correm pequenos cursos d’água—Rego de Santa Mariña, Rego de San Cristovo, Rego de Bacelo—até alcançar a última crista de serra, depois de Moutras, e descer pelo vale, até o Miño.

Saindo de A Brea, nossa trilha era calçada de pedras e seguia ladeando um pequeno córrego de águas cristalinas que, após Morgade, ia provavelmente alimentar o curso do Rego de Santa Mariña.

Trilha calçada, seguindo o curso de um córrego

Em Ferreiros, cuja grafia nos fez, de novo, lembrar da semelhança com o português, havia um belo mapa, com relevo e gráfico de altimetria, mostrando as ondulações por que passaríamos, para descer até Portomarín.

A trilha seguiu proporcionando-nos um ambiente agradável, com a temperatura variando entre os 14º e 15ºC, serpenteando por entre as fazendas e ladeada, ora por muretas de pedra, ora por sebes ou monturos, ora por grupos de árvores ou cercas de arame. Assim, passamos por Miralles, A Pena e, já aos 55km de percurso, neste dia, As Rozas.

Trilha ladeada por árvores e mureta de pedras, na altura de As Rozas

O trecho seguinte foi mais uma parte do Camino a nos oferecer dificuldades técnicas para pedalar, que ficavam amplificadas, a esta altura do dia, pelo cansaço, que já se fazia sentir. Mas, ainda assim, enfrentamos pisos irregulares, pedras soltas, rochas e desníveis abruptos e prosseguimos. Alcançamos, sacolejando, a vila de Mormentos, descemos para o Marcadoiro, nas margens do Rego de Barcelo, e subimos, de novo, para chegar a Moutras.

Descida técnica, com muitas pedras e irregularidades, próximo a Mormentos

Para compensar tamanho esforço, a trilha nos oferecia algumas delicadezas, como estas pequenas flores, que adornavam a lateral da vereda, ao final da difícil descida de Mormentos.

Flores à beia da trilha, em Mormentos

Após passar por Moutras, alcançamos o último topo de colina, antes da descida para o Miño, e avançamos para A Parrocha. Mas, antes de lá chegar, à altura do acesso para A Tellada (que não visitamos), tivemos, por um momento, uma vista longínqua da cidade de Pedrouzos, que fica também às margens do Miño, mas a alguns quilômetros acima de Portomarín.

Vista de Pedrouzos, no cruzando donde sai o acesso a A Tellada

Depois, a meio caminho de Vilachá, nos maravilhamos com as flores silvestres, que pontilhavam de luz um campo em descanso.

Campo com flores silvestres, antes de Vilachá
Casa de pedra, no vilarejo de Vilachá

Chegando a Portomarín

Passando Vilachá, a estrada de cascalho se aplaina e desce, macia, em direção ao grande rio, cujas águas e fama avançam, depois, para terras de Portugal.

Assim, não tivemos muita novidade, até que, sempre descendo, chegamos ao Río Miño e atravessamos a grande ponte nova, que por si só, coalhada de peregrinos, sob um majestoso cortejo de nuvens, que emulava, no azul cristalino do céu, o avanço dos andarilhos, fazia um espetáculo à parte.

Uma vez atravessado o Miño, pegamos a estrada que vai à direita da ponte e, após uma subida de cerca de 500m de extensão, chegamos à praça da Igrexa de San Nicolao.

Porta da Igrexa de San Nicolao

Uma igreja “simpática”

A igreja de Portomarín é, talvez, a coisa mais feia que vimos em toda a viagem pelo Camino. Que me perdoem os locais e os possíveis devotos, mas não conheço nada mais boxy e deselegante que esta igreja, que parece não decidir se quer ser santuário, castelo ou masmorra.

A Igrexa de San Nicolao, que coisa mais feia!

Do lado esquerdo de quem—argh!—a olha, vimos a Posada del Camino, um simpático albergue, numa casa de pedra, avarandada, com o bar no térreo e os quartos no andar superior, como parece ser usual por aqui. Bia aventou a hipótese de haver algum quarto vago e sugeriu que consultássemos. Então, eu fiquei com as bicicletas, em frente à varanda, e ela entrou para perguntar. Alguns minutos depois, Bia voltou alegre, com a notícia de que, de fato, havia quartos disponíveis e por um preço razoável, mais baixo, inclusive, do que aquele que era cobrado pelo albergue do Alto da Cruz, localizado, supostamente, a oito quilômetros adiante.

Achamos isso muito estranho. Pois, como era possível que, numa situação de excesso de demanda, como nos fora reportado pelo comerciante de Vilei, encontráramos quartos vagos na primeira pousada que consultamos? E, ainda mais, num lugar tão central como a praça da igreja?—Sem entender nada, mas feliz por termos encontrado hospedagem na própria cidade, liguei para o Hospital da Cruz e cancelei a reserva.

No geral, achamos Portomarín uma cidade muito gostosa de se visitar. Cheia de peregrinos e pessoas comuns, agitada, mas não demais. Tinha um ritmo suave, que permitia, por exemplo, ao filho do gerente do bar—um garoto de não mais que 8 anos—vestir seu pequeno capacete e brincar, sem supervisão adulta, pelo calçamento das ruas da praça, na sua bicicleta.

Era tempo de descansar deste longo, mas bem sucedido dia. Mas, antes de nos recolhermos à habitación, cumprimos, ainda, duas tarefas importantes: tomamos um delicioso chopp, no bar da pousada, e pegamos um carimbo da cidade para nossas credenciais, lá do outro lado da rua, naquela igreja, digamos, “simpática”.

Resumo do dia 17 – Caminho de Santiago

Percurso: de Alto do Poio (Padornelo) a Portomarín

Distância e ganho de elevação: 62,5km com 860m de ganho de elevação

Até amanhã!

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