Trabadelo, CASTILLA Y LEÓN

A Casa Rural Os Arroxos, onde passamos esta última noite, se compõe de dois edifícios, um defronte ao outro, nos dois lados da única rua do Trabadelo, que corre em paralelo ao curso do Río Valcarce, que já encontramos em outras ocasiões. Do lado da montanha, tem uma casa ao pé da rua, com um andar de pedra e o segundo em alvenaria, sem muita graça, quase feia e, encostada nela, uma garagem coberta e fechada, onde deixamos estacionadas as bicicletas. No térreo, fica o bar, que também funciona como recepção, comedor e sala de estar, como é comum acontecer nos albergues dos pequenos vilarejos do Caminho. No mesmo edifício, no andar de cima, ficam os quartos e banheiros compartilhados, com camas e beliches. Do outro lado da rua, de frente para o bar e de costas para o vale do Valcarce, há um sobrado mais simpático, recuado da calçada e sem qualquer identificação comercial, onde o albergue oferece quartos com banheiros privados, dentre os quais aquele que ocupamos. Há, também, um setor isolado por uma porta de vidro, pela qual se podia ver uma sala de estar e a partir de onde, supostamente, se localizam os cômodos privados dos donos do estabelecimento. Como o frio e a chuva não me deixaram ânimo para fotografar o local, busco ajuda no Google: Os Arroxos.

Ontem, por volta das seis da tarde, quando chegamos a Os Arroxos, encharcados e tremendo de frio, entramos primeiro no bar e recebemos no rosto o agradável afago da atmosfera cálida e envolvente daquele ambiente, que era aquecido por uma estufa onde crepitavam, atrás de uma portinhola de esquadria metálica com vidro, algumas toras de lenha. Depois de nos aquecermos um pouco, tomarmos uma xícara de café com leite e enquanto fazíamos os procedimentos de registro de hospedagem, a dona d’O Arroxos, uma senhora espanhola, na faixa dos sessenta anos de idade, mostrava-se muito espantada com o fato de que números dos nossos passaportes eram sequenciais. Quando expliquei que nossos passaportes anteriores tinham expirado na mesma época e que os novos receberam números sequenciais porque fomos atendidos juntos, no processo de renovação, ela disse que, na Espanha, os passaportes também expiram e perdem validade, mas ainda assim mantém, nas renovações, um mesmo e único número, que é idêntico ao da cédula de identidade de seu portador. Esta troca de informações, além de nos ilustrar sobre as idossincrasias das respectivas burocracias pátrias, também serviu para nos abrir um canal de comunicação um pouco mais intimista, que foi útil, no dia seguinte, para saciar minha curiosidade e, na sequência, me deixar em pequenos maus lençóis.

Trabadelo na manhã do 15º dia: 7ºC com chuva fina

—É o que sai dos culhões!

Pois foi nesta manhã do 15º dia do Caminho, em Trabadelo, que ainda chovia a cântaros. E a previsão era de mais chuva, para o dia todo, sem contar o frio. Nossas roupas, molhadas desde a aventura na chuva e no frio de ontem, para completar, não haviam secado quase nada, durante a noite que passaram no varal improvisado no nosso quarto privado, usando o cordão e os prendedores que eu vinha levando nos meus alforges, para esta finalidade, e que já haviam nos servido em muitas outras ocasiões desta viagem. Mas, havia um Cebreiro a conquistar. Então, levantamos por volta das 7:45h e, tendo verificado que chovia e que a temperatura não passava dos 7ºC, nos vestimos para sair, de uma maneira um pouco peculiar. Neste dia, nossas roupas de pedalar, entre úmidas e encharcadas, incluíram todos os agasalhos de que dispúnhamos: calça e camisa tipo segunda-pele; bermuda e camisa curta de pedalar, por cima; manguitos, para os braços; canelitos, para as pernas; luvas inteiras, com luvas de meio dedo, por cima, para aquecer as mãos; sapatilha (sendo tênis, no caso da Bia); dois pares de meias, vestidos um sobre o outro, para aquecer os pés; agasalho fleece, para manter o calor do corpo; e, finalizando, um corta-vento, nominalmente semi-impermeável, mas já bem encharcado.—Parece muito para você?

Paramentados deste modo bizarro, saímos do quarto e da casa pela porta que dá para os fundos, onde se encontra uma pequena piscina e o gostoso ruído da água correndo no rio, logo adiante. Subimos uma pequena rampa para veículos e cruzamos o portão de ferro, localizado num canto do terreno, do lado que dá para a rua, onde se viam, do outro lado, duas ou três bicicletas, com alforges instalados, decerto pertencentes a outros ciclo-peregrinos que não havíamos encontrado na véspera. Seguimos em frente, para o bar, do outro lado da rua, de onde já se ouvia um leve burburinho de pessoas comendo ou ocupadas com a preparação de mochilas e capas de chuva, para sair em caminhada.

Em busca de café, tostadas con mantequilla e coragem para enfrentar a chuva e o frio, não encontramos mesa vaga e nos contentamos em sentar nos bancos que remanesciam desocupados, dentre os que se distribuíam ao longo do balcão. Acabamos ficando mais ou menos no meio de tudo, entre um casal de coreanos e duas peregrinas, uma (talvez) espanhola e a outra alemã. Aguardamos e, enquanto a dona do albergue não nos atendia, ocupada à máquina de café, notei, de relance, uma folha sulfite, presa por um clipe na estante da parede do fundo do balcão, onde se via uma espécie de tabela, preenchida à mão com textos que eu não conseguia enxergar bem, e um título em letras maiúsculas de impressora de computador, suficientemente grandes e destacadas para que eu pudesse ler, àquela distância, a palavra “PORRA”.

Intrigado, resolvi lançar mão da maior intimidade e da facilidade de acesso que se estabelecera, entre nós e a dona do abergue, em virtude do diálogo da véspera, a respeito dos passaportes e seus números sequenciais. Depois de fazermos os pedidos do café da manhã à senhora, perguntei, com todo o cuidado que a situação exigia, qual seria o significado daquela misteriosa tabela, com título tão inusitado. Então, com a maior tranquilidade, ela me olhou e, parecendo espantada por eu não o saber, respondeu, sem qualquer vestígio do rubor que eu, talvez, esperasse dela, tratar-se de uma tabela de palpites, apostas a respeito dos resultados dos jogos do campeonato espanhol de futebol.

Sorri. Achei hilário, deveras, o termo chulo do português, no espanhol, ser o mesmo que o nosso prosaico “bolão”. Entretanto, não deu tempo para que eu me divertisse muito, porque, uma vez esclarecido o falso cognato, do lado espanhol, restou-me explicar para a senhora, da parte do português, o que afinal significava aquela palavra no Brasil. Aí, fiquei em maus lençóis, constrangido. Como eu poderia explicar o sentido daquele termo chulo, ainda por cima fazê-lo em espanhol, dirigindo-me a uma senhora, talvez mais idosa que eu? Aí, eu é que ruborizei. Gaguejei, pensei um pouco… tentei explicar pelas beiradas, usando um “portunhol” tão envergonhado, quanto ineficaz, porque a senhora nada entendia.

No fim, quem me tirou do embaraço, mas só para me lançar no ridículo, foi outra peregrina, que não tinha entrado na história, mas nos ouvia com atenção e falava bem o espanhol. Ela entendeu, com perfeição, o sentido do que eu tentava, sem sucesso, dizer à senhora, e explicou-o, à queima-roupa, num espanhol claro e sonoro, que fez o bar todo explodir em risadas:

—És lo que sale de los cojones!

Albergue do Brasil.

Nossa saída, sob a chuva que prosseguia sem parar, foi às 9:17h, quando a temperatura parecia oscilar, dos 7ºC indicados na internet, para um pouco mais frio. Não há como certificar-me deste detalhe, porque o Gps leva algum tempo, cerca de 15 a 20 minutos, para se adaptar totalmente, a partir da temperatura amena, mantida dentro dos cômodos do albergue, para o frio úmido, que fazia naquele momento, na área externa. Posso dizer, com segurança, que aos 20 minutos de trajeto, tínhamos 6ºC de temperatura, que caíram para 5ºC, ao passarem-se mais 15 minutos e, por sua vez, reduziram-se para 4ºC, quando já iniciávamos a subida do famoso Cebreiro, 1 hora e 10 minutos depois.

Neste intervalo total de cerca de 1 hora e 45 minutos, percorremos o trecho do Caminho que acompanha o curso da parte mais alta do Río Valcarce, até o início da subida longa e íngreme que, mais apropriadamente, se pode chamar de subida do Cebreiro. É um percurso que, mesmo em condições climáticas mais favoráveis, exige bastante do ciclista, posto ser acidentado e tortuoso, seguindo por uma estradinha estreita, que ondula ao sabor das curvas do rio e das montanhas. No geral, o trajeto vai subindo, exceto quando desce, por um ou outro curto segmento, geralmente para cruzar os afluentes daquele rio. É um sobe e desce que não se acaba: sobe, ultrapassa um morro; desce, passa uma ponte; sobe, vence uma saliência de encosta; desce, passa outra ponte. E volta a subir e virar; e volta virar e a descer.

Assim, sucessiva e incansavelmente, vamos passando por morros, córregos e bosques, mas também por uma infinidade de pequenos vilarejos, que se exibem para nós, com suas histórias antigas e suas casas pitorescas: pedra clara nas paredes; telhas negras nos telhados. Tão lindo!

Vilarejo de Ambasmestas, sob chuva fina, às 9:53h, 5ºC

Com menos de três quartos de hora pedalando na chuva gelada, o frio já se entranhava através de nossas roupas molhadas e fazia-nos sentir seus perniciosos efeitos. Começamos a perder a sensibilidade nos dedos e, para piorar, a chuva aumentou. Então, ao vermos uma placa, indicando nossa chegada àquela Vega de Valcarce que, se bem o leitor recorda, era nosso objetivo, não alcançado, no dia anterior, e vendo que havia um pequeno albergue, logo adiante, resolvemos parar.

Albergue do Brasil, em Vega de Valcarce, sob chuva mais intensa, às 9:56h, 5ºC

Tratava-se do Albergue do Brasil, que pertence a um conterrâneo brasileiro, muito simpático, natural do estado do Paraná, que nos ofereceu café, chá e trouxe para o local onde estávamos um enorme aquecedor a gás, que nos ajudou a reativar a circulação nas mãos e nos pés. Ele nos contou alguns “causos” do Caminho e disse que já o percorrera pelo menos oito vezes. Também disse que, desde o ano passado, resolvera se estabelecer temporariamente no Caminho e por aqui estava. Como a conversa fluia gostosa e o calor suave do aquecedor fazia-nos sentir melhor, acabamos ficando mais de meia hora por ali. Depois, foi preciso muita força de vontade para levantarmos dali e sairmos de novo, enfrentando frio, chuva gelada e subida, outra vez.

Meu “painel de instrumentos”, sob a chuva, no vilarejo de Ruitelan

A subida. A chuva. O frio.

Então, pegamos nossas coisas, ajustamos os capacetes, vestimos as luvas e óculos e saímos de novo. Passamos por Ruitelán e Las Herrerías e, depois de cruzarmos, sucessivamente, pontes sobre o Rego da Ribera e o Río das Lamas, entramos na parte mais íngreme e majestosa do caminho. Trata-se do percurso de cerca de 9 km, que aí se inicia e segue, serpenteando pelas encostas, até atingir o topo do maciço, no vilarejo que leva-lhe o nome, O Cebreiro. Neste trecho, por tão escarpado, há poucos vilarejos. E sobram o maciço, a mata e as flores, a chuva e o frio.

Flores silvestre, numa curva próxima ao Río Mazaco. Às 11:13h, com 4ºC.

Um pouco adiante do local onde fotografei estas flores e registrei que a temperatura havia perdido mais um grau, descendo aos 4ºC, há uma bifurcação, com sinalizações no asfalto indicando, para os pedestres, o caminho à esquerda, que segue o Regueiro de Boucelo e passa pelo vilarejo de La Faba. No mesmo local, outra sinalização horizontal recomenda, para os ciclistas, a estrada à direita, que segue o curso do Regueiro de Refoxos, passando ao largo daquele vilarejo, até reencontrar o sendeiro dos caminhantes na altura do povoado de La Laguna. Como se vê, pela posição da Bia na foto, seguimos estas indicações:

Bifurcação, com indicações para peregrinos pedestres e ciclistas.

Na verdade, as duas alternativas de trajeto seguem paralelas, percorrendo os lados opostos da garganta profunda que tem, ao fundo, o curso do Regueiro de Refoxos. O lado que sobe pela direita, indicado para os ciclistas, faz o trajeto um pouco mais extenso, seguindo, uma parte no asfalto, uma parte em piso de cascalho, com um pouco menos de inclinação.

Saindo do asfalto, em direção a La Laguna

Obedecendo as indicações da estrada, às 11:35h chegamos a um novo entroncamento, de onde saía uma estrada em piso de cascalho, também com indicações específicas para os peregrinos ciclistas. Antes de continuar, dei uma olhada na tela de temperatura do Gps, que me indicou 3ºC. Neste local, encontrei com dois ciclistas italianos que também seguiam para O Cebreiro e estavam com dúvidas sobre o trajeto a seguir. Então, trocamos informações sobre o itinerário e o tempo e eles seguiram em frente, enquanto eu fiquei mais um pouco por ali, tentando aquecer as mãos, enquanto aguardava Bia me alcançar. Foi aí também o lugar onde ela, ao chegar, me liberou para seguir adiante, sem esperá-la, até o próximo ponto de parada “aquecido”, para que eu sofresse menos com o frio.

Mais adiante, um pouco antes de chegar a La Laguna, começou a baixar uma névoa úmida, em meio à chuva fina e constante. A sensação de frio era intensa e eu já tinha deixado de sentir os dedos, das mãos e dos pés. Olhei o horário e a temperatura: 12:09h, com 2º C.

Névoa úmida em meio à chuva, ao meio-dia

A chuva, de novo, apertava. Um pouco depois, finalmente, alcancei o ponto onde os trajetos de caminhantes e ciclistas se reencontram, em La Laguna, e, seguindo alguns metros adiante, cheguei ao Albergue “A” Escuela, onde parei para descansar e me aquecer.

Vista das primeiras casas de La Laguna, antes de percorrer o arco que contorna a cabeça da ravina e chegar a um abrigo aquecido

Ao entrar no bar do albergue “A” Escuela, encontrei a sala coalhada de peregrinos, que me olharam com olhos ao mesmo tempo assustados e compreensivos, como só pode fazer quem possua, viva e presente, a experiência de um frio intenso, quase mortal. Um casal que se aquecia e secava peças de roupa junto à estufa, se afastou um pouco para me dar lugar, mas meus dedos, insensíveis, não conseguiam achar a fivela da alça do capacete, para soltá-lo. Fiquei alguns instantes parado, como um bêbado idiota, tentando me desvencilhar daquela peça da indumentária ciclística que não saía, até que consegui abrir o maldito fecho. Tomei assento frente ao fogo da estufa e coloquei as mãos quase coladas ao vidro da portinhola, atrás da qual o fogo crepitava, e senti o calor reverberar por entre meus dedos e me afagar com energia, como um sopro vital. Minhas mãos doíam muito, doíam até nos ossos, mas eu me sentia feliz. Feliz por estar me aquecendo; feliz por poder descansar num lugar seco; feliz por estar vivo! Só então me lembrei da companheira. E gelei, de novo, de preocupação.

Bia chegou quase meia hora depois. Também gelada e assustada, veio se juntar a mim, diante da estufa. Um pouco depois, pedimos uma bebida quente (nem me lembro qual) e um bocadillo de jamón, que compartilhamos em silêncio. Passado um tempo, que parecia um nada, verifiquei as horas e constatei que já estávamos há muito ali dentro: eu há uma hora, Bia há meia. Levantei-me e falei, como se fosse um comando, ao invés de uma proposta: —Está ficando tarde. Vamos seguir para O Cebreiro!—Então, nos levantamos de onde estávamos e começamos a vestir, novamente, os mesmos acessórios encharcados que havíamos despido para descansar. Passava das 13 horas, quando saímos. Persistia a chuva e o frio de 2ºC.

O Cebreiro.

De volta à estrada, na chuva, continuamos a subir. Felizmente, pouco tempo depois, a chuva diminuiu e chegaram a aparecer, ao longe, algumas manchas de luz, indicando que a camada de nuvens, acima de nós, se rarefazia um pouco e, pelo menos naquele momento, tivemos esperança de um tempo um tiquinho melhor.

Vista do Caminho, um pouco antes de O Cebreiro, às 13:22h, com 2ºC

Na ilusão de um peregrino inexperiente, o Caminho é um retiro prolongado, onde o fiel andarilho se acerca, se for perseverante, de se iluminar. E este caminho ascencional se dá numa linha contínua, segura e resplandecente de fé. Só na ilusão. O Caminho real é misterioso e inconstante, traiçoeiro, descontínuo e cruel. Ele apalpa e afaga nossa soberba, para logo nos massacrar. Perscruta, com vagar, nossas fraquezas e as vai pondo, uma a uma, em carne viva. Avança devagar, com paciência, com um tempo e um ritmo que não sabemos, alternando conquistas com derrotas, ânimos com tombos, alegrias com tristezas, e destruindo, uma a uma, as ilusões, até o desnaturado maldizer o dia em que resolveu ser peregrino. E, logo em seguida, resolver, apesar de tudo, prosseguir.

Pouco depois daquela visão de esperança nos campos, o tempo piorou de novo. Voltou a neblina e, com ela, a garoa gelada. Mas chegamos, afinal, ao Cebreiro. Eram 13:30h e eu verificava os mesmos 2ºC de temperatura, na tela do Gps. Após percorrermos 20km, incluindo os 9km finais de subida íngreme, em 4 horas e 16 minutos de esforço, chegamos ao topo do maciço. Mas não havia vagas, em nenhum dos muitos albergues que ali se localizam.

O Cebreiro, às 13:33h, com garoa fina, neblina e 2ºC de temperatura.

A crise.

Sem esmorecer, seguimos em frente, em direção ao próximo vilarejo, Liñares, que ficava a apenas 3km adiante, na maior parte descendo. E então, como o Caminho havia resolvido zombar um pouco mais de nós, subitamente, o tempo melhorou. Foi um momento efêmero, mas marcante, em que a neblina se dissipou, parou de chover e nós chegamos a ver, por alguns instantes, uma parte das grossas nuvens, que acinzentavam o céu, se abrirem num pequeno flanco, por onde um tênue clarão de sol conseguiu passar, descer e brilhar sobre as flores, na encosta da montanha.

Breve clarão de sol brilha sobre a encosta da montanha, no caminho de Liñares

Passado este instante eterno, veio de novo a garoa. Mas seguimos em frente.

Depois, a garoa voltou a se tornar chuva. Mas a temperatura até aumentou um pouco, um ou dois graus. E seguimos em frente.

Bia desce a estrada, em direção a Liñares, sob crescente garoa, às 13:47h

Mais adiante, veio um frio ainda mais intenso do que eu possa, mesmo tendo-o vivido, imaginar. Mas seguimos em frente.

Ao chegarmos a Liñares, meu Gps registrou a tempetura baixa recorde de 1ºC. Paramos as bicicletas na frente do único albergue do vilarejo, Linar do Rei, e entramos, só para saber que, também ali, não havia vagas.

Foi a primeira situação, nesta longa viagem, em que Bia falou em desistir. Sugeriu pegarmos um táxi até a cidade de Triacastela, para esperar um tempo melhor. Negociamos. Lembrei-a—e a mim mesmo, também—de que já estávamos na Galiza, tendo passado pelo pior (eu supunha).

Ao final, para evitar uma desistência total, concordei em pegarmos um táxi até o próximo albergue, num lugar chamado Alto do Poio, próximo ao vilarejo de Padornelo, a apenas 5,3km de distância. A dona do Linar do Rei, que já tinha sido muito gentil em telefonar para uma infinidade de albergues da região, até encontrar este que tivesse vagas, então, chamou-nos um táxi, também o único disponível na redondeza, que demorou mais de uma hora para chegar.

Quando o táxi chegou, as coisas estavam mais calmas entre nós e a chuva tinha diminuído um pouco. Desmontei as rodas das bicicletas e a taxista Andrea, muito prestativa, me ajudou a colocá-las no carro. No trajeto, fomos conversando amenidades e, logo, chegamos.

O Albergue Poio era pequeno e isolado, no alto de uma colina que abrigava, além dele, um outro albergue, do lado oposto da estrada. Nada mais.

Um fim de mundo.

No Albergue Poio havia um quarto razoavelmente limpo, seco e minimamente aquecido. E comida quente.

Um pedaço de céu.

O Albergue Poio

Alto do Poio, no inverno, em foto baixada da internet

Nos instalamos num dos quartos com baño privado, que ficavam no andar superior. Um quarto pequeno, com apenas uma janela que, entretanto, dava somente para uma área de serviço interna ao edifício, donde não se podia ver o mundo exterior. Estava munido de uma cama de casal, criado-mudo, um armário, uma cadeira, um console com uma pequena tv e um banheiro minúsculo, com pia, vaso e box. Era só.

Como após um banho quente, o mundo todo nos soa como um lugar melhor, uma vez lavados e aquecidos, nós nos animamos a lavar as roupas que haviam sujado e colocar tudo a secar no nosso indefectível varal improvisado, que, entretanto, não foi suficiente para tanta roupa molhada. Buscamos alternativas, então. Primeiro, usamos a cadeira, depois o suporte da tv e assim fomos, sucessivamente, distribuindo as peças molhadas, até que utilizamos todos os móveis, ganchos e saliências disponíveis naquele cômodo, posto que os nossos guarda-roupas completos—o de verão e o de inverno—tinham sido utilizados e devidamente encharcados naquela chuvarada sem fim.

Para roupa do corpo, como não dispúnhamos de outros agasalhos, além dos que tínhamos molhado durante o dia, restou-nos usar a única muda de roupas remanescente, mas sem nenhum agasalho de frio. Assim, mesmo estando precariamente vestidos para o clima reinante, ainda que num ambiente interno de albergue, descemos para o bar, no térreo, onde o dono do estabelecimento mantinha a estufa bem quente, alimentando-a, periodicamente, com uma ou duas toras novas, e nos instalamos na mesa mais próxima daquela fonte de calor, sob o tagarelar constante de uma tv, que era mantida, o tempo todo, sintonizada num canal de variedades.

Enquanto fazíamos hora, para esperar o horário de jantar, assistíamos à tv e, considerando que nossa chegada acontecera por volta das 16:30h, havia, de fato, bastante tempo a matar. Não sei se lá é sempre assim, ou se estava acontecendo diferente porque o clima se passava tão pouco usual para a época do ano, o fato é que, da hora em que nos acomodamos na mesa do bar, até o horário em que, já tendo jantado, voltamos ao quarto, chegamos a assistir a pelo menos quatro atualizações da previsão do tempo para o norte da Espanha. No que diz respeito à região onde estávamos, o primeiro boletim que assistimos dava uma mínima de 2ºC, ventos fortes e chuva. O segundo boletim, atualizou a mínima para 0ºC, o terceiro para -1ºC e o quarto para -4ºC, acrescentando a possibilidade de nevascas, na madrugada e manhã do dia seguinte, para os locais acima dos 1.300m de altitude. E o Alto de Poio está a 1.335m.

Eu e Bia conversamos a respeito dessas previsões e ela manifestou grandes preocupações com os riscos que se desenhavam. Eram preocupações reais, que eu também compartilhava, ainda que sem manifestar muito, para não assustá-la ainda mais. No final, disse a ela que, na minha opinião, tínhamos três alternativas para o dia seguinte—enfrentar o frio e pedalar, porque em Triacastela, mais baixo, estaria melhor; ir a Triacastela de táxi e lá reavaliar a situação; ou ficar mais um dia onde estávamos, aguardando o clima melhorar. Mas, acrescentei, para o dia de hoje, o melhor que me ocorria fazer era dormir bem a noite e esperar o amanhecer, porque só então saberíamos, de fato, como o clima se apresentaria e, só então, poderíamos decidir bem.

E assim fizemos.

RESUMO DO DIA 15 – CAMINHO DE SANTIAGO

Percurso: de Trabadelo a Liñares (e Alto do Poio de táxi)

Distância e ganho de elevação: 23.3km (+5.3km, táxi) com 844m (+189m, táxi) de ganho de elevação

Até amanhã!

Percurso pedalado (vermelho) e o trecho feito de táxi (azul)

4 comentários sobre “17 de maio de 2.019 – 15º dia – Caminho de Santiago

  1. Isso que é aventura, hein??? Adorei o relato, como sempre, texto muito bem escrito! Me preocupei com vocês, por passarem tanto frio… Se tivessem pego a gripe com que estou, como fariam? Meu Deus! Eu penso que o Luiz Carlos poderia publicar o relato da viagem, ilustrado com as fotos. Seria possível? Beijos, mamãe/Edith

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muitos amigos tem falado que eu deveria publicar. Não sei, livro com tantas fotos ficaria caro. Minha amiga Marisa até me indicou dois jornalistas e editores. Acho que vou primeiro terminar o relato, depois penso nisso. Inclusive porque, para publicar, o materila precisaria ser reformulado.

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