Decididamente, Santiago não está querendo facilitar as coisas para esta dupla. Ou então pretende valorizar o passe destes Dois no Caminho. O oitavo dia começou com 13°C e o chuvisco gelado iniciou assim que pusemos os pés (ou as rodas) na rua. Depois a chuva parou, mas foi substituída por mais uma sessão interminável de ventos frontais, com rajadas.

Três dias seguidos de vento forte e contrário ninguém merece! Mas foi o que tivemos. E nós ainda ousamos subir esta “pequena” montanha, após a cidade de Castrojeriz, para respeitar o trajeto tradicional do Camino:

Mas, agora chega de lamúrias e vamos à história do oitavo dia.

Saímos com chuva fina, que às vezes parava, às vezes voltava. E o tempo chuvoso, geralmente, dá um caráter melancólico e intimista às paisagens, que também pode ser aproveitado, na vida como na fotografia.

Pois assim fomos, os Dois no Caminho, remoendo pensamentos gelados, ao longo da trilha que descia quase paralela ao rio Alarzón, por entre parques e propriedades em terra nua, como é comum na saída de grandes cidades.

Ainda em Burgos, a entrada da Faculdade de Direito
Parque ao longo das margens do rio Alarzón, ainda no município de Burgos
Fonte estranhamente situado no meio do nada, já bem fora da área urbana
Campo arado, próximo ao distrito de Villalbilla de Burgos

Acima, ponte antiga em que cruzamos o rio Alarzón e a vista que dela se tinha, por volta de 10h

Do outro lado do Alarzón, encontraríamos duas cidadezinhas bem próximas: Tardajos e Rabé de Las Calzadas. Como, a esta altura, os períodos de chuva já iam rareando, foi possível registrar bem estas paragens.

Nas três fotos acima, a pequena Tardajos

De Tardajos, basta seguir mais um pouquinho e cruzar o rio Úrbel—afluente do Alarzón—para chegar a Rabé de Las Calzadas que, além do nome pitoresco, exibe uma fonte na praça e o indefectível ninho de cegonhas encarapitado no alto da igreja.

Às onze da manhã, tendo saído de Rabé de Las Calzadas, presenciamos a última pancada de chuva fina. Na estrada de terra, 11:11h, registrei dois peregrinos ainda envergando suas capas coloridas, quando já estiava:

Daí em diante, não houve mais chuva. Mas o vento… ah, o vento. Sob as nuvens pesadas, em constante movimento, só fez aumentar!

Nessas condições, a partir da saída de Rabé, fizemos uma subida íngreme, cruzamos um curto planalto descampado (veja a foto acima) e descemos, para encontrar a minúscula Hornillos Del Camino, num fundo de vale.

Fotos acima: aproximação e exploração de Hornillos Del Camino

Daí, foram mais dez quilômetros de subidas íngremes, mesetas planas fustigadas pelo vento e descidas abruptas, até chegar Hontanas, cidade que parece ter-se acocorado numa pequena depressão do planalto, para se proteger da inclemência dos ventos.

Longa subida, após a saída de Hornillos

Mesetas fustigadas pelo vento, fazendo as geradoras eólicas funcionarem a toda corda
Mais uma subida, antes de descer para Hontanas
Vista da cidade, na chegada a Hontanas

Hontanas é especial, não apenas por sua curiosa disposição quanto ao relevo. Num jardim de uma casa comum, no meio da cidade, encontramos prova cabal de que aquele famoso menino da estatuária de Bruxelas, o Manneken Pis, cresceu. E manteve os mesmos hábitos.

Fonte em jardim particular de Hontanas

Com tantos destaques, não poderíamos deixar Hontanas, sem mais nem menos. Resolvemos almoçar na cidade e descansar um pouco. Depois saímos para Castrojeriz, passando, no caminho, pelas ruínas do Monastério de Santo Anton, ainda sob forte ventania.

Um dos lindos campos de fundo de vale, entre Hontanas e Santo Anton

Ruínas do Monastério de Santo Anton (3 fotos acima)

Ao nos aproximarmos de Castrojeriz, aos poucos, o horizonte distante foi sendo ocupado pela silhueta de um grande monte, com o formato aproximado de um gigante deitado, primeiro semi-ocultado por um monte menor e pela própria cidade.

Castrojeriz, ao pé do pequeno monte, vendo-se o grande monte atrás
Aproximação de Castrojeriz, vendo-se o antigo forte no topo do pequeno monte

A cidade de Castrojeriz é antiga e fascinante, a ponto de nos fazer esquecer, por algum tempo, do desafio que vinha a seguir.

Igreja à entrada da cidade de Castrojeriz
Catedral de Castrojeriz
Detalhe da entrada da catedral
Monumento, numa pracinha de Castrojeriz
Casario do centro

Nosso destino, Itero de La Vega, ficava exatamente do outro lado desse colosso que chamei de grande monte e o Camino, ao invés de contorna-lo, passando por Castrillo de Cabezón ou por Pedrosa Del Principe, seguia diretamente à encosta, uma longa subida com inclinação média de 12°, seguida de uma descida de semelhante quilate.

Fomos. Veja no mapa:

Conforme íamos nos aproximando da montanha, só crescia a apreensão. Como enfrentar aquela subida depois de mais de 40km de sobe e desce sob chuva e vento contrário?

Vista da planície, na estrada que leva ao grande monte

Nas duas fotos acima, vistas de uma antiga ponte de pedra, provavelmente romana
Pastor toca suas ovelhas, no campo verdejante
Aproximação da subida

Logo no início dessa difícil subida, tive que parar. Desenrolava-se bem ao lado da ladeira, na encosta do monte, um espetáculo aéreo. Um falcão, senhor de seus domínios monteses, dava um show de acrobacias e, num fugaz momento, afugentava uma gralha que ousava passar por seu território.

Animados por este presente do acaso, fomos subindo devagar, lutando contra a inclinação e o vento. Uma ou outra parada de descanso servia para fotografar o que já ficara para trás, e abaixo. Também o quanto faltava, para cima.

Por bem ou por mal, a subida foi vencida. Foi um esforço enorme, mas chegamos ao topo e de lá contemplamos o que foi conquistado!

Seguiram-se alguns momentos de descanso, lá no alto, ouvindo-se o tilintar desafinado das peças de metal que, penduradas na cruz de ferro que se vê ao lado do marco de cume, eram arremessadas contra ela pelas rajadas duras do vento.

Depois, uma última olhada para Castrojeriz, lá em baixo, e a retomada do nosso caminho, cruzando um curto patamar plano, varrido pela ventania e, logo a seguir, numa descida que nenhum vento contrário conseguiria segurar.

Aos pés da montanha, do outro lado, em terras da distante Castrillo de Cabezón, mais feno e trigo, em campos cultivados que pareciam sem fim.

Já perto de Itero de La Vega, talvez a uns 5km da chegada, Bia já estava de mau humor, depois de tanto perrengue de três dias consecutivos de ventos intensos e frontais. Então chegamos ao entroncamento com uma via asfaltada, onde havia uma bica de pedra e jorrava um fio de água límpida. Em frente, num banco de uma área de descanso, como muitas que há à beira do Camino, um espanhol descansava. Disse-nos ele: —Podem beber, porque a água é excelente. Eu fiz concha com as mãos e bebi. E vendo que a água era deliciosa e gelada, bebi mais. Chamei Bia para beber, mas ela, de cara amarrada, fez que não.

Depois que agradeci e me despedi do espanhol, partimos. Então indaguei à Bia porque ela não tinha bebido de uma água tão boa. Ela me explicou que ficará brava porque havia cumprimentado o espanhol e ele nem tinha olhado para ela. Achei melhor não insistir no assunto.

E vai-se andando, pensando, pedalando, e eis que chegamos à famosa ponte Fitero, sobre o rio Pisuerga.

Ponte Fitero
Vista do rio Pisuerga, da ponte Fitero

Depois, foi só procurar um bom Hostal em Itero de La Vega, lavar as roupas, descansar. O resto fica para amanhã.

Resumo do dia 8 – Caminho de Santiago

Percurso: de Burgos a Itero de la Vega

Distância e ganho de elevação: 52,5km com 540,6m de ganho dek elevação

Até amanhã!

6 comentários sobre “10 de maio de 2.019 – 8° dia – Caminho de Santiago

  1. Fotos maravilhosas, pena que não tenho tempo pra ver mais e mais vezes! A catedral gótica (ruínas) é de comover, tirar o fôlego. Cada lugar mais lindo que o outro! Ter a oportunidade de fazer esse percurso é um presente pra poucos!!!
    Sobre o tempo, pensei: será que o mês certo não seria julho? Eu me lembro que sempre viajávamos em julho (férias universitárias) e fazia sol e muito calor. Ou esse ano esse tempo inóspito é exceção? Beijos da mamãe/sogra.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sobre o espanhol que nem olhou pra Bia, penso que deve ser daqueles machistas que acham que mulher é inferior e nem vale a pena prestar atenção nelas… risos Parece que os espanhóis tem fama de machistas mesmo. Quando tem um homem e uma mulher, machistas conversam só olhando para o homem… Eu passei por isso há algumas semanas… É horrível. Entendo minha nora. Beijos.

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